Felicidade – a boa memória que sempre se busca

Por Maria Regina Martins Cabral

Texto baseado em palestra sobre o tema Felicidade, proferida no III Café Freudiano.

Desde que William Amorim me falou do Café Freudiano, ainda no seu planejamento e nos convidou (a FFI) para ajudar a materializar a parte do líquido preto que pode ser tomado junto com as palavras que nos fazem tão bem, eu achei uma grande ideia. Pelo evento, pelo dia, pelo horário, pelo local e, sobretudo, pelos encontros. Nós e as ideias – ditas sem muito rigor, mas responsavelmente, ao mesmo tempo em que sentimos o aroma do café. Um excelente programa. Um grande sucesso.

Já estava pesquisando sobre o tema por conta de um desejo pessoal. Contudo, aceitar falar sobre felicidade foi um impulso de militante. Depois fiquei pensando que apesar de ter decidido escrever um texto, por um desejo subjetivo de refletir sobre o que pessoas próximas de mim pensam sobre felicidade, me dei conta de que não sou uma especialista nesse assunto tão carregado de sentimentos ímpares; pensei, contudo, que apesar desse não ser um objeto de pesquisa ao qual me dedique, é um sentimento que busco viver. Portanto, minha abordagem não será filosófica e nem psicanalítica; abordarei o tema a partir de alguns fragmentos literários e dos sentimentos meus e dos amigos que fizeram depoimentos para o meu pequeno artigo.

Pensar sobre a felicidade em um processo autorreflexivo veio junto com a convivência com algumas pessoas muito próximas que tiveram variados momentos de depressão, em que, em geral, não conseguiam recuperar a vitalidade, a alegria, a capacidade criativa… a felicidade?

Na convivência, tentei, por diversas vezes, olhar para dentro de mim em busca de explicações… mas, o que via era que o sentimento de tristeza que tão insistentemente invadia meus amigos queridos, em geral não se prolongava em meu ser. Quando isso ocorria sentia que em seguida algo como uma fogueira acendesse dentro do meu corpo aquecendo e espraiando calor.

Eu coloquei o verbo no passado, porque não conto as horas, mas tenho uma impressão que a chama tem sido mais preguiçosa nesses últimos meses. A minha autorreflexão passou a ser sobre o que realmente está acontecendo, se eu de fato tenho sabido viver e alimentar essa chama. De verdade, tenho pensado coisas do tipo: por que acumulei tantas coisas, comprei, construí e reconstruí tantas “casas” por onde estive? Por que priorizei esse tipo de bens materiais? Não é tão mais fácil investir na vida que pulsa, na cultura, nas viagens, no ócio…. ? Quanto tempo gastamos fazendo manutenção da “casa” externa, sem dedicar tempo para nossa “casa” interna!

Ficar com essas dúvidas me remete saudosamente aos bons tempos das infantis, livres, líricas e lúdicas lembranças da criança correndo atrás de borboletas no jardim da mãe ou das gargalhadas fáceis sem parar após qualquer coisa sutilmente engraçada.

Lembranças de sorrir dentro do carro por se sentir plena ou sorrir após um trabalho exitoso, ou durante um encontro de amigos. Sorrir após mais uma notícia de uma viagem pelo Brasil ou pelo mundo para mais um trabalho. Sorrir lendo, assistindo filmes, olhando as flores, caminhando descalça. tomando chá ou café, cozinhando, ao terminar mais um projeto… Talvez o sorriso tem sido sempre o sinal de estar em um instante de felicidade sem  a necessidade de fazer o jogo do contente da Poliana.

Mas… Por que agora o sorriso é menos frequente e a chama parece ser menor? Talvez haja certa saudade no peito porque como diz a musica, a felicidade foi embora…? Será? Por quê?

Por que o corpo não é mais tão jovem? Pela crise política, econômica e de valores no Brasil e no mundo? Pela violência circundante que causa pânico?

Ou essa sensação de ter menos momentos de felicidade é pela tristeza de tudo que tem acontecido – em seu conjunto? Certo medo da realidade indefinida pelo poder gerido pelas mentes do atraso?

Luiz Fernando Veríssimo diz sobre o VENTO que “os tristes acham que o vento geme; os alegres acham que ele canta”.

Talvez haja momentos em que estamos assim. Apenas pelo momento.

Mas, e a felicidade?

Ao se fazer uma busca sobre o que é felicidade encontra-se que é um substantivo feminino, que significa qualidade ou estado de pessoa feliz, satisfeita, alegre, contente; sentimento do vencedor, sensação real de satisfação plena,  estado de quem tem boa sorte.

Entre as pessoas que responderam a minha pergunta, duas disseram que felicidade é quando se alcança o que se deseja. Mas quando se tem o que se quer não se passa a desejar outra coisa?  Nesse caso, essa definição é problemática.

Clovis de Barros Filho define felicidade como um pequeno segundo da vida, um pequeno instante, que você gostaria de repetir. Eu diria que é aquela boa lembrança cultivada, jamais esquecida. E como é importante cultivarmos as boas lembranças! Façamos isso enquanto podemos. Ela alimenta nos momentos de aridez. São a abundância em tempos de escassez. Mesmo na tristeza, elas continuam nos fazendo sorrir.

Uma das reflexões que tem sido recorrente é a de que ser feliz sem motivo é a mais autêntica forma de felicidade. Mas também para não ser feliz pode não existir motivos? Ou apenas não enxergamos esses motivos explicitamente? Tanto para ser como para não ser feliz há situações que favorecem no processo.

Ouvi muitas amigas sobre o que é felicidade para elas. Amigas de todas as classes sociais e de diferentes idades, graduações e atividades profissionais.

Estava em uma consulta esta semana quando uma me disse que somos felizes quando o ego se recolhe e a compaixão se espraia. Essa expressão se irradiou em mim e ficou ecoando, lembrou-me de Sêneca que se refugiou nos valores estoicos do desapego e da indiferença e descobriu que esses valores podiam trazer-lhe felicidade, mesmo nas circunstâncias mais terríveis que ele podia imaginar. Ele explica que felicidade “só pode ser alcançada ao se ter, primeiramente, uma mente sã, em controle constante de sua integridade; então, uma mente corajosa e enérgica, que também seja dotada da forma mais nobre de tolerância; capaz de lidar com as circunstâncias do momento; atenta (mas não de forma obsessiva) ao corpo e às suas necessidades; preocupada com outras habilidades que auxiliem nossa vida, mas não se deixando impressionar demasiadamente por nenhuma delas; usando os presentes do destino sem se tornar escrava deles (…) Liberdade e tranquilidade duradouras seguirão depois de termos banido tudo o que nos vexa e nos amedronta”.

Mais recentemente, o inglês Bertrand Russel  com a obra A Conquista da Felicidade, com método da investigação lógica disse que ser feliz é eliminar o egocentrismo.

Uma professora que sempre amou sua profissão me disse que era feliz quando estava em uma sala de aula e conseguia acompanhar a construção do saber pelos estudantes. Nem liberdade e nem tranquilidade duradouras para ela. Hoje, sente-se infeliz sempre que entra por aquela porta. Tudo que faz é contar as horas para fugir do ambiente que disse ser ameaçador.

Outra amiga reclamava que seus momentos mais alegres e que lhe deixavam plenamente feliz eram quando toda a família se reunia em volta da mesa para as refeições, o que não mais conseguem realizar.

Quando lia esses depoimentos ficava imaginando que aquilo que nos deixa feliz vai mudando de geração para geração, mesmo que tenha nas ciências, na filosofia e na psicanálise explicações que desvelem as recorrências.

Imaginar a felicidade em um contexto em que se podia interagir com outras pessoas e noutro em que se interage com sensores é muito diferente?

O mundo hoje tem mais sensores do que pessoas. Como diz a propaganda na internet, “a inteligência artificial está presente em todas as coisas”. E tudo isso não está na terra, mas nas nuvens. Nas nuvens (literalmente) onde estão as cabeças de muitas pessoas mais jovens, que antes de conhecerem história, filosofia, psicologia, arte já dominam as mais novas tecnologias presentes nos equipamentos, aplicativos, games… lançados diariamente. Nossas cabeças também já foram para lá (nuvens) através da literatura, hoje essa viagem é mais recorrente via essas tecnologias.

Em Segredo da Felicidade, Georges Bernanos diz que “saber encontrar a alegria na alegria dos outros, é o segredo da felicidade”! Então, precisamos, mesmo sem interagir, ficar feliz, por exemplo, porque nossos filhos estão felizes com seus sensores?

Em Seio da Felicidade, Lao-Tsé de certo modo nos ajuda a entender essa questão ao dizer que “a felicidade nasce da infelicidade; a infelicidade está escondida no seio da felicidade”.

Durante a escrita do texto eu ganhei um livro de uma amiga escrito por Richard Schoch sobre a História da (in)felicidade. (Três mil anos de busca por uma vida melhor).Um Best seller traduzido por Elena Gaidano.

A doutrina religiosa budista também analisou a felicidade, que se tornou um dos seus temas centrais. O budismo acredita que a felicidade ocorre através da liberação do sofrimento e pela superação do desejo, através do treinamento mental.

Confúcio acreditava na felicidade devido à harmonia entre as pessoas.

Em uma das respostas que recebi uma pessoa falou que felicidade tem a ver com a pulsão de vida. É isso? E o que ocorre com a ausência dela, a pulsão de morte? Para desejarmos viver precisamos estar entre o desejo e o gozo. E quando chega a angústia, o que fazer com esse desequilíbrio? Não sei responder. Não enveredarei por essa reflexão. Mas sei que podemos agir.

Quando perguntei o que era felicidade para meus amigos, recebi 36 respostas. Tinha enviado também para minha irmã, Ângela Cabral, psicóloga, que mora em Brasília. Ela não respondeu exatamente a pergunta, mas me enviou alguns links para pesquisa e um vídeo que achei muito interessante, de um médico indiano, Deepak Shopra, que vive nos EUA. Ele, usando conhecimentos da medicina, da religião e da física quântica, entre outros saberes, em dez minutos abordou a importância de se mudar a percepção do corpo físico, que não é físico, mas uma atividade, um processo.

Citando Heráclito que dizia que nenhum homem entra e sai igual duas vezes do mesmo rio, explicou que o eu não pode entrar duas vezes na mesma carne e osso e ficar igual mediante processos como comer, ler, digerir, ou de metabolismo, iluminação, experiências sensoriais, pensamentos, sentimentos, desejos, memórias, imaginação, criatividade, intenção, intuição, inspiração… ou seja (mesmo sem pensar na reencarnação – mas apenas em uma única vida), por conta dessas atividades o corpo está em permanente transformação.

Os átomos que inspiramos a todo o momento espraiam por nossas células e órgãos. Tecnicamente, todos, compartilhamos nossos órgãos com a respiração aqui neste auditório da AMAE, segundo o que explicava esse médico.

Continuou lembrando que existem estudos, cálculos matemáticos que comprovam que cada um de nós tem milhões de átomos que estiveram no corpo de Jesus Cristo, de Buda, de Gengis Khan ou de qualquer outra pessoa; que só nas últimas semanas um quadrilhão de átomos passou pelo nosso corpo, átomos de toda espécie viva no planeta… por exemplo, de uma árvore da Amazônia ou da África, de um esquilo na Sibéria, de um camponês na China… que nenhum átomo do nosso corpo é igual ao átomo de quando nascemos. E concluiu sua apresentação falando sobre a importância de recriarmos o corpo com atividades simples, quase todas que já sabemos, mas nem sempre seguimos, tais como:

  • dormir para rejuvenescer o corpo;
  • meditar para acalmar e despertar a mente e ter leveza da alma;
  • movimentar-se para fortalecer o corpo;
  • cultivar bons sentimentos e emoções saudáveis para um bem estar emocional;
  • fazer dieta;

Disse ainda, que na base de tudo isso está uma inteligência orquestrando todas essas atividades.

Continuou: temos 600 trilhões de células no corpo, mais que as estrelas da via láctea, mais somente dez por cento dessas células são humanas; somos como uma colônia ambulante de bactérias e células humanas trabalhando como ecossistema. Ressalta, o que muitos físicos afirmam, que nosso corpo é poeira das estrelas que se regula, evolui e pode dar salto não apenas no futuro, mas agora, pois estamos no universo e o universo está em nós, com hidrogênio, carbono, oxigênio, silício, ferro… tudo isso das estrelas que explodem.

Então, como vamos buscar esses instantes de felicidade com esse ecossistema ambulante? Mesmo em tempos de fúria e de ódio como vamos alimentar instantes de paz e de amor? Se não estamos encontrando a felicidade vamos procurá-la interligando pensamentos e trocando átomos através da nossa respiração.

Quero concluir com uma fala de Guimarães Rosa, que diz que “a felicidade se acha é em horinhas de descuido” e como me desejou outra amiga na dedicatória do livro de Richard Schoch “que possamos nos “descuidar” cada vez mais em nossas vidas”.

E ao William Amorim e ao Corpo Freudiano quero dizer que este evento me possibilita instantes de felicidade, todas as vezes que venho para cá intercambiar pensamentos e tudo o mais que nosso corpo permite.

Obrigada!

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Texto II – A torneira do analfabetismo está pingando: achados não pedidos na política educacional

Por Regina Cabral

 

A EJA é uma modalidade tanto do Ensino Fundamental quanto do Ensino Médio, é portanto, direito subjetivo. Mas, como já disse em um texto anterior, a materialização dos direitos no Brasil leva tempo e, por vezes, enfrentamos muitos desafios. No meio do caminho o que foi materializado pode virar pó, de acordo com o perfil dos poderes da Nação.

Mais recentemente pudemos ver que, também no contexto capitalista, onde a educação se torna mercadoria e os empreendedores nesse campo (públicos e privados) estão desejosos de cada vez terem mais economia ou lucro, políticas são estruturadas não com o olhar atento aos sujeitos de direito, mas à eficácia do sistema e na sua relação com financiamento/fluxo regular de alunos na relação idade/série. Alunos que não seguem o fluxo estão na distorção (do sistema).

Nesse sentido, avaliações são propostas em nível global e aplicadas indiferencialmente a quase todas as escolas do mundo para se obter uma média internacional do aprendizado. Isso nem é totalmente bom e nem é totalmente ruim, precisa ser contextualizado. Avaliações como essas, por exemplo, revelam que o Brasil vai levar mais de 250 anos para alcançar a fluência leitora dos países desenvolvidos. Será? Por quê?

Outras avaliações tentam mostrar a eficiência dos sistemas pela quantidade de anos que os alunos concluem na idade certa a sua escolaridade. Isso tira a atenção do sujeito de direito, que é o aluno, passando o olhar a ser direcionado para os números das avaliações, que tentam impor um padrão único de aferição de saber e qualidade prejudicando milhões de adolescentes e jovens que são classificados como incompetentes e inadequados para o sistema. Quem está com distorção idade/série passa a ser um indesejado no sistema e o investimento é proposto para ser prioritariamente destinado ao ciclo regular. É importante que não haja desperdício do dinheiro público, mas essa reflexão é distorcida e perversa. É abrir novamente a torneira do analfabetismo absoluto ou funcional.

Por que se têm índices apontando diminuição de numero de matriculas no ensino fundamental e médio no país, ou um gap entre entrada e saída no início e fim dos ciclos (fundamental e médio)?

Por causa desse circuito perverso, uma bola de neve que só aumenta por causa de variáveis internas e externas, subjetivas e objetivas a cada aluno expulso do sistema e não mais acolhido.

No Brasil, o que ocorre é uma mescla do que há de melhor (a garantia da escola pública para todos) com o que há de pior (apenas os fortes e melhores sobrevivem). É uma mistura que faz com que muitos adolescentes e jovens sejam expulsos do ensino fundamental diurno para o ensino fundamental noturno, eliminando para muitos cidadãos a garantia da continuidade da oferta.

Em pesquisa divulgada em outubro de 2018, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE diz que quase 40% dos jovens brasileiros com 19 anos de idade (cerca de 1,1 milhão de pessoas) não têm o ensino médio completo. Isso apesar dos avanços contínuos nos últimos anos após a instituição do FUNDEB, em 2007. Esses jovens que saíram da idade regular logo estarão sem acolhida em um formato presencial de oferta de ensino. A proposta do Governo que assumirá em janeiro de 2019 é, ao máximo, a oferta à distância em todas os níveis e modalidades da Educação Básica, imaginem na EJA.

No Maranhão, que já teve campanhas para matriculas no Ensino Fundamental e onde já se realizou muitas campanhas contra o analfabetismo de jovens e adultos, maranhenses cada vez mais jovens são obrigados a buscarem uma escola noturna em situação onde a oferta nem sempre é existente, pelas outras variáveis que nem sempre são consideradas, como da violência nos bairros que assustam diretores e professores e fazem com que os portões de escolas sejam fechados e matrículas não sejam abertas.

Esse é mais um dilema no vai e vem de nossa política educacional. Contudo, não se pode deixar de lutar por esse direito humano indispensável na construção de um mundo humanizado.

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Texto I – O protagonismo da EJA no Maranhão: perdidos e achados da história oficial

HISTÓRIAS DA EJA NO MARANHÃO

Por Regina Cabral

Há muitas formas de se contar a história.

Depende do que seja prioritário, dos olhares, da empatia e do rigor.

Eu vou contar um pouco da história da EJA no Maranhão de forma leve e breve, em seis pequenos textos que serão publicados no meu blog de educação.

 

Texto I – O protagonismo da EJA no Maranhão: perdidos e achados da história oficial

(Dialogando com professores da EJA – SEMED – SLS, dia 05 de dezembro de 2018)

 

Todos os dias são dias para aprendermos coisas novas

e mudarmos nossas vidas e nosso mundo.

Falar sobre a história da EJA em São Luis repercute diretamente em mim, por ter sido a EJA uma das áreas que mais investiguei e atuei, tanto na formulação de propostas, quanto na formação de professores, construção coletiva de materiais educativos e articulação de redes.

A reflexão que faço, portanto, resulta sempre de um processo contínuo de ação – reflexão – ação, iniciado em 1986. Alguns aspectos dessa história serão retomados por mim, aqui, neste diálogo.

Antes da ditadura militar houve inúmeras campanhas e, nos anos 1960, uma tentativa de se criar um amplo movimento pela educação libertadora de jovens e adultos, a partir da experiência de Paulo Freire, realizada no Nordeste Brasileiro.

Com o golpe de 1964, é criado o Mobral, em 1970,  e, na sequência, no início do processo de redemocratização, é criada a Fundação Educar.

Esse era um período de dados alarmantes sobre o analfabetismo no país. Nessa década (1960), a taxa de analfabetismo da população acima de 15 anos era de 40%. Duas décadas depois esse índice baixa para 20% da população e, a partir de acordos coordenados pelas Nações Unidas, via UNESCO, houve a aclamação de 1990 como o Ano Internacional da Alfabetização. No entorno desse ano aconteceram muitos debates em nível da sociedade civil e de governos sobre a importância de se fechar a torneira do analfabetismo e de se garantir escolarização para todas as pessoas do mundo.

Desde os anos 1980 eu vivo essa história. Do período pós ditadura militar, costumo organizá-la em três blocos:

1º Bloco – Domínio da Sociedade Civil na mobilização do país pela educação de jovens e adultos e na realização de projetos de alfabetização e pós-alfabetização de adultos.

Muitos educadores, organizações não governamentais e movimentos sociais que se envolveram nessa jornada foram articulados por uma Rede denominada RAAAB – Rede de Apoio à Ação Alfabetizadora no Brasil.

A partir da segunda metade dos anos 1980 a Rede é criada. Nos anos de 1987 e 1988 foram realizadas as primeiras reuniões e primeiros encontros com esse objetivo. Na sequência, após o encerramento do Mobral, em 1985, movimentos sociais e ONGs estabeleceram convênios com a Fundação Educar, recém-criada pelo Presidente Sarney. Esse órgão deveria coordenar ações voltadas para alfabetização e pós-alfabetização de jovens e adultos. Ao mesmo tempo, educadores que voltavam ao país, pós-ditadura militar e organizações que foram criadas nesse período retomam, em diversas áreas, de forma contundente, o ideário freireano focado na educação popular.

A RAAAB começa no Rio de Janeiro, mas logo passa a ser coordenada de São Luis. Em 1989, no III Encontro Nacional da RAAAB, realizado na capital maranhense, foi definido o perfil dessa Rede e eleita uma primeira coordenação institucional. Naquele momento, foi escolhida para coordenar essa articulação nacional a ASP – Associação de Saúde da Periferia do Maranhão, que teve importante atuação na implantação do Sistema Único de Saúde e na discussão da educação de jovens e adultos no estado do Maranhão, desde sua criação no início da década de 1980. Nesse mesmo encontro foi elaborada a “Carta de São Luis”, que cobrava do Governo Sarney que a Comissão do Ano Internacional de Alfabetização, recém-criada, no âmbito dos acordos com as Nações Unidas, se reunisse e que dela participassem representantes da sociedade civil.

No encontro (1989) foi discutido que a Rede seria, preferencialmente, uma articulação de movimentos e organizações envolvidos com a alfabetização popular de jovens e adultos e mobilizaria a sociedade para a luta e a garantia dos direitos de todos os brasileiros à educação de qualidade, como direito humano fundamental. A ação da Rede aconteceria via espaços diversos de diálogos, seminários, encontros e outros eventos.

A estrutura da RAAAB, a partir de 1989, previa uma coordenação geral constituída por uma ou mais organizações e a existência de núcleos estaduais. Os núcleos estaduais tinham programações próprias. Por exemplo, o Núcleo da RAAAB no Maranhão realizou cinco encontros e duas feiras de alfabetização, bem como encaminhou junto à Secretaria de Estado da Educação, em parceria com o Fórum Estadual em Defesa da Escola Pública, a implantação das Comissões Nacionais, em nível estadual.  O papel desse Núcleo teve relevância no conjunto dos debates realizados em nível nacional.

O objetivo da RAAAB era a luta pela educação popular dos brasileiros e a garantia do direito à alfabetização por parte daqueles que até então não tinham ingressado na escola. Também se voltava para pensar propostas de formação de educadores. Os debates eram realizados nos encontros de estruturação da rede e nos eventos como as Feiras Latino-americanas de Alfabetização. Nessas Feiras, havia debates, intercâmbios, demonstrações de práticas e encaminhamentos de passos seguintes.

A partir da Carta de São Luis, a RAAAB foi convidada a participar da Comissão do Ano Internacional de Alfabetização, que se reuniu de 1989 a 1990. Essa Comissão  criada para coordenar, no país, as ações do Ano Internacional da Alfabetização foi responsável pela produção do documento “Alfabetizar e Libertar”.

Posteriormente, a RAAAB foi convidada pelo Governo Collor a participar da Comissão do PNAC – Plano Nacional de Alfabetização e Cidadania – no período de 1991 a 1992. Essa comissão organizou a Reunião Preparatória para a I Conferência Brasileira de Alfabetização. A RAAAB participou de cinco dessas reuniões nacionais.

As notícias da Rede eram divulgadas através do Boletim da RAAAB, com tiragem média de 500 exemplares distribuídos para organizações de todo país. Esses boletins eram produzidos em São Luis e enviados pelo correio aos integrantes da Rede. A edição especial para o V Encontro Nacional da RAAAB (2003) foi o último número produzido pela ASP.

A partir de 1994 até 2004, outra ação da Rede foi importante para a formação dos professores: a concepção e publicação de 18 números seguidos da Revista Alfabetização e Cidadania. Em 2006 foi publicado o número 19, edição especial sobre a diversidade dos públicos da EJA. A ONG Ação Educativa, de São Paulo, teve papel importante nesse momento.

Quadro 34 – Eventos nacionais organizados pela RAAAB

Principais eventos nacionais Organizador Local e período
I e II Encontro Nacional da Rede de Apoio à Alfabetização – para organização da Rede no Brasil CEAAL 1987 – 1988
III Encontro Nacional da RAAAB RAAAB e CEAAL São Luis, 1989
Atividades diversas do Ano Internacional de Alfabetização RAAAB 1990
Reunião Preparatória para I Conferência Brasileira de Alfabetização e Cidadania MEC, RAAAB Brasília, 1991
IV Encontro Nacional da RAAAB RAAAB São Luis, 1991
I Feira Latino americana de Alfabetização RAAAB Curitiba, 1992
V Encontro Nacional da RAAAB RAAAB Salvador, 1993
II Feira Latino americana de Alfabetização RAAAB Salvador, 1993
III Feira Latino americana de Alfabetização RAAAB Brasília, 1995
IV Feira Latino americana de Alfabetização RAAAB 1997, Recife

Fonte: Acervo da ASP

 

2º Bloco  – Maior protagonismo das Secretarias de Educação

 

A partir da Constituição de 1988 é criada a nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB / 1996) e a EJA começa a ser visibilizada como política educacional prevista na estrutura da educação básica, como modalidade de Ensino Fundamental e de Ensino Médio. Essa legislação aos poucos vai fortalecer a EJA, via política pública de educação, não mais apenas realizada através campanhas, apesar de continuarem programas e projetos de alfabetização por dentro e por fora das redes de ensino.

Esse momento está mesclado e potencializado com e pelo anterior. Vai tomando forma com o FUNDEF e com iniciativas internacionais como da UNESCO que conclama a sociedade civil e governos a discutirem documentos e a prepararem-se para a V CONFINTEA que aconteceria na Alemanha (Hamburgo), em julho de 1997.

Mediante a omissão do Governo FHC que não tomou medidas mais consistentes para a promoção do debate e para a implantação de propostas mais focadas na educação de jovens e adultos, inclusive reduzindo o financiamento para a modalidade da EJA, outras formas de articulações surgiram no país. A criação de Fóruns Estaduais, que contaram com a participação de representação de órgãos governamentais e das organizações da sociedade civil foi uma dessas formas.

O primeiro Fórum EJA foi o do Rio de Janeiro, criado em 1996, a partir de embriões de articulações existentes no Estado. Em seguida, vários outros foram sendo criados como os de Minas Gerais, São Paulo, Rio Grande do Sul, Espírito Santo, Paraíba e Rio Grande do Norte. Tinham como objetivo reunir governos e sociedade civil em torno da política nacional da EJA. No Maranhão o Fórum também foi criado e manteve sua agenda.

Quadro 35 – Cronologia na criação dos Fóruns EJA

Eventos e mobilizações Proponentes Local e período
Mobilização para diálogos sobre as deliberações das conferências organizadas pela UNESCO UNESCO, MEC 1996,  Brasil
Instituição da Comissão Nacional de EJA – responsável pela mobilização MEC 1996
Discussão preparatória para V CONFITEA entre Secretarias de Educação, Universidades e ONG´s (discussão e elaboração de documento) UNESCO 1997
Encontro Nacional de Educação de Jovens e Adultos – para discussão da CONFITEA UNDIME, CONSED, MEC, RAAAB Curitiba, 1998
Mobilização de Fóruns Estaduais e organização de encontros estaduais. Desde 1996
I ENEJA 05 Fóruns 1999, Rio de Janeiro
II ENEJA 08 Fóruns 2000, Campina Grande
Reunião de discussão do papel dos Fóruns Estaduais de EJA RAAAB e Fóruns 2001, Brasília
III ENEJA 10 Fóruns 2001, São Paulo
IV ENEJA 12 Fóruns 2002, Belo Horizonte
V ENEJA 17 Fóruns 2003, Cuiabá
VI ENEJA 22 Fóruns 2004, Porto Alegre
VII ENEJA 24 Fóruns 2005, Brasília
VIII ENEJA 26 Fóruns 2006, Recife
IX ENEJA 25 Fóruns 2007, Pinhão – PR
X ENEJA 26 Fóruns 2008, Rio das Ostras – RJ
XI ENEJA 26 Fóruns 2009, Belém
XII ENEJA 26 Fóruns 2011, Salvador
XIII ENEJA 26 Fóruns 2013, Natal

 

Durante esse período, migrou-se de um debate teórico sobre a educação popular de jovens e adultos e a defesa de educação para todos, realizado por movimentos populares, sindicais e ONGs para outra linha de discussão, centrada diretamente na política e na oferta da EJA realizada pelos entes federativos. Além desse deslocamento, perderam força as perspectivas mais voltadas para a educação popular, tendo a classe social como categoria de análise, e ganhou peso o culturalismo e as diversidades dos sujeitos contemplados com as políticas da EJA, que passam a ser adotadas como categorias prioritárias de análises que referenciam as novas pesquisas e propostas.

A concepção de alfabetização e educação como um processo contínuo de aprendizagem, na perspectiva da educação problematizadora de Freire, continua um dos temas de discussão, entretanto, a ideia de educação ao longo da vida passa a ser adotada também com a noção de um tipo de educação cuja metodologia leve o estudante da EJA a aprender a aprender.

Críticas ao conceito de educação ao longo da vida começam a ser feitas, não por essa ideia não ser interessante, pois estamos de fato sempre aprendendo, mas porque por trás da ideia tinha a intencionalidade do mercado de que mediante a perda de empregos provocada pela financeirização e mudanças tecnológicas do sistema capitalista e por suas recorrentes crises se justificaria o trabalhador continuar a estudar não apenas para se preparar para atender às novas exigências do sistema produtivo capitalista incrementado por contínuas novas tecnologias, mas também como uma modalidade de política compensatória, dada a necessidade de se manter esse trabalhador adulto inserido em alguma ocupação.

 

3º Bloco – Reflexão e produção de conhecimento nas Universidades

Este bloco, segundo o desenho que esboço, surge não como um novo modelo, mas com a entrada mais contundente das universidades no debate sobre educação de jovens e adultos, por dentro dos Fóruns EJA. Esse fato é relevante porque são as universidades as principais instituições formadoras de professores e, até então, a EJA tinha ficado à margem de seu interesse.

Uma participação maior das universidades com a EJA se inicia e se espraia com o envolvimento direto dessas instituições com as seguintes iniciativas: Programa Alfabetização Solidária (Governo FHC), PRONERA (MST) e, mais recentemente, com o PROEJA (Governo Lula).  Gradativamente, alguns cursos de formação inicial e de pós-graduação, ou disciplinas nos cursos de Pedagogia e Licenciaturas foram sendo implantados nas universidades brasileiras.

A entrada das Universidades, de modo mais contundente, se amplia com participações mais efetivas nos Fóruns e com a criação do GT 18 da ANPED, quando pesquisas se multiplicaram em todas as regiões do país.  São os Seminários Nacionais de Formação de Educadores da EJA que dão um tom mais formal a essa entrada das universidades, que passam a ter um lugar de destaque nesse cenário nacional da Educação de Jovens e Adultos.

Quadro 36 – Seminários de EJA

Seminários Local e período
I Seminário Nacional de Formação de Educadores de EJA UFMG, 2006
II Seminário Nacional de Formação de Educadores de EJA UFG, 2007
III Seminário Nacional de Formação de Educadores de EJA Porto Alegre , em 2010
IV Seminário Nacional de Formação de Educadores de EJA Brasília, 2012

 

Em todos esses momentos, educadores maranhenses estiveram envolvidos. Em alguns deles, na coordenação do processo.

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Educação e direitos humanos: desafios e perspectivas

Fonte foto: internet

Por Regina Cabral

 

(Rabiscos de palestra realizada em evento realizado pela Secretaria de Estado dos Direitos Humanos/SEDIHPOP, dia 22 de novembro de 2018 com o título Práticas e processos da educação em direitos humanos: desafios e perspectivas)

 

Educação é uma política estruturante.

Atualmente o Ensino Fundamental e o Ensino Médio são direitos subjetivos.

Falar em processos da educação em direitos humanos é falar em muitos direitos que envolvem essa política estruturante. Só para citar alguns desses direitos e sua relação com a educação:

  • Toda pessoa tem o direito de ser tratada pelos agentes do Estado com respeito e dignidade, por isso mesmo todos brasileiros têm direito de ser auscultados ao cobrarem o seu direito à educação.
  • Toda pessoa tem o direito de exigir o cumprimento da lei: da Constituição Federal, da LDB, do FUNDEB, apenas para citar algumas das leis que garantem a educação básica no Brasil.
  • Toda pessoa tem o direito de ter acesso ao Poder Judiciário e ao Ministério Público, quando o seu direito subjetivo não é garantido; esses dois poderes podem obrigar o executivo a ofertar o que está garantido na lei.
  • Toda pessoa tem o direito de ser, pensar, crer e manifestar-se ou amar, sem ser alvo de humilhação ou discriminação, por isso mesmo, ninguém poderá proibir essas livres formas de ser e pensar e o Estado poderá punir quem agir de forma discriminatória e humilhante.
  • Toda pessoa tem o direito de ter acesso à escola, o contrário deve causar punição, inclusive à família que não possibilita aos filhos os estudos.
  • Toda pessoa tem o direito de praticar a religião que escolher e não poderá ser obrigada a seguir uma religião contrária à sua.
  • Toda pessoa tem o direito de não ser torturada, inclusive com humilhações e outras formas de tortura, na unidade escolar.
  • Toda pessoa tem o direito a ter acesso ao lazer, de fazer reuniões, desde que sejam pacíficas e de ter segurança dentro e fora da escola.

 

Mas a materialização dos direitos no Brasil leva tempo e por vezes enfrentamos muitos desafios. Históricos e atuais.

Vamos lembrar um desses desafios, o de todos os brasileiros terem direito à educação. Com a Constituição Federal de 1988 e a Lei de Diretrizes e Bases de 1996 o Ensino Fundamental passou a ser direito subjetivo, tendo sido materializado com a lei do FUNDEF que induziu governantes de todo o país a matricularem crianças e adolescentes no Ensino Fundamental,  ao definirem para cada aluno um valor anual a ser repassado para as Secretarias de Educação que garantissem as matrículas. Ou seja, há apenas vinte e dois anos todos os brasileiros (dos sete e posteriormente dos seis aos quatorze anos) puderam ter efetivamente esse direito cumprido.

Há onze anos muitas cidades brasileiras não tinham escolas de Ensino Médio. Apenas com a Lei do FUNDEB, de 2007, todos os jovens que quisessem, não importando onde estivessem puderam ter garantida uma matricula na etapa final da educação básica, tendo sido usado pelo governo Federal o mesmo formato indutor da lei anterior.

Ainda não se conseguiu vivenciar três décadas dessa mudança, nem conseguimos consolidar o sistema de educação no país e novas possibilidades de mudança podem acontecer. Isso porque, na onda da nova gestão, ideias de privatização do ensino e de ampliação da oferta em modalidade de EAD avançam, o que devem possibilitar menos tempo de estudantes nas escolas, na contramão das tendências de tempo integral em andamento também no Ensino Médio. Uma das propostas é de que trinta por cento do ensino médio seja ofertado à distância.

O que fazer?

Como lutar por esse direito humano à educação de qualidade?

Como defender políticas que ajudem o mundo a ser mais humano e o material ser mais descartável e insignificante?

Como lutar contra essa figura monstruosa, a maior que já foi produzida ao longo da história da humanidade e que se chama mercado?

A reflexão e a luta continuam.

Você pode contribuir com os comentários.

 

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Ensino Médio Profissionalizante como ponto de desenvolvimento orgânico de territórios vulneráveis

Pelo Formação

 

Durante o VIII Encontro Estadual de Políticas Públicas e Juventude Regina Cabral[1] idealizadora do Formação – Centro de Apoio a Educação Básica (Instituto Formação), organização maranhense que cada vez mais cresce e irradia os conhecimentos que concebe para outros lugares desse nosso grande / pequeno mundo fez uma palestra sobre o pensamento do Formação a respeito de escola de nível médio como ponto de desenvolvimento de território.

O nosso GT de Educação (GTE) fez uma entrevista com ela sobre essa tecnologia, em desenvolvimento desde 2003,  que foi inicialmente implantada na Baixada Maranhense.

GTE: Você sempre parece tão feliz quando fala do Instituto Formação. É felicidade mesmo?

RC: Em geral sou feliz com o que faço e sou feliz por ter companheiros éticos e de coragem sonhando e materializando sonhos comigo, desde 1999. Também falar em educação sempre me deixa feliz. Pensar em soluções para situações difíceis é uma das coisas que mais gosto. Não sou uma pessoa para revisar ou para seguir o determinado. Sou uma pessoa para inventar, criar e sempre que falo to criando, com liberdade e com o máximo de amor que pode sair de mim. Amor pelo outro. Amor que impulsiona a continuar sonhando com um mundo mais justo para todos. Isso me deixa feliz.

GTE:  Por falar na equipe do Formação – nos seus associados e direção – sempre as pessoas ficam curiosas para saberem como sendo todos tão diferentes, no trabalho têm procedimentos tão parecidos. O que você acha disso?

RC: Ainda lembro dos primeiros momentos quando fundamos o Formação. Uma das motivações era criar um chão saudável, onde pudéssemos trabalhar de forma horizontal, sem chefe (mas com comando), sem disputa e combatendo ao máximo os defeitos inerentes a cada um de nós, pois somos humanos com defeitos como todos os demais. Acontece que você não precisa alimentar os defeitos; pode alimentar as virtudes, a positividade, o lado bom que também todos os humanos têm. Nem sempre conseguimos, mas tentamos porque sabemos  que muitas vezes atitudes como disputa, inveja, corrupção, ambição desmedida entre outros aspectos negativos destroem ambientes de trabalho. Penso que se o Formação em algum momento for tomado por esses sentimentos nós fecharemos as suas portas. Porque não o criamos para ter essa configuração.  É verdade que somos diferentes e parecidos. Diferentes na vida pessoal e social. Parecidos na forma de pensar e administrar o Formação. Em geral atuamos pelo consenso, porque os grandes temas, as grandes decisões têm respostas muito claras para todos nós.

GTE: Por que você sempre fala para os jovens que eles têm grandes potencialidades inexploradas?

RC: Em primeiro lugar porque é uma verdade. Para mim e esse pensamento hoje é também de todo Formação, não importa onde nascemos e vivemos, qual é a nossa cor, quanto dinheiro no bolso ou no banco temos etc. se temos oportunidade de aprendizagem e de desenvolvimento vamos muito além, estando na Baixada Maranhense ou em Seul. Todos nós, todos os jovens temos grande potencialidade  e por isso mesmo o que cada um é pode se tornar ainda maior, desde que haja rica mediação entre o seu real que é a vida do momento e esse seu potencial a ser ampliado e materializado na própria existência cotidiana. Vigostky nos fala sobre isso com suas Zonas de Desenvolvimento (Real, Proximal e Potencial).

GTE: O Maranhão oportuniza esse desenvolvimento ao jovem?

RC: Historicamente não. Ainda hoje, muito pouco. Poderia dar vários exemplos aqui, mas costumo dizer que o Maranhão pouco investe na educação de seus moradores apesar de ser um estado com grande potencial de desenvolvimento. Vou citar três exemplos dessa potencialidade: temos o porto potencialmente mais profundo do país e o mais perto do Pacífico / Oriente (pelo Canal do Panamá) e da Europa – poucos maranhenses conhecem o Complexo do Itaqui; São Luis tem um rico Centro Histórico que se potencializado possibilitaria bem estar para os maranhenses e turismo de qualidade para quem vem de outros estados e países; o estado possui um litoral extenso e rico que, em geral, tem seus frutos do mar explorado por outros estados e países. Para desenvolver essas potencialidades não há investimento estruturante que prevê o processo de desenvolvimento humano de sua população.

GTE: Por que isso ocorre?

RC: São algumas as razões. Mas eu simplificaria dizendo  que os governantes  daqui, regra geral, parecem que ou pensam pequeno ou são ingênuos e ou  pensam de forma mesquinha e do ponto de vista do lucro pessoal. Não se estrutura o estado para que se desenvolva. Tudo é feito aos pedacinhos. E pedacinhos que logo são abandonados. Por exemplo, quando uma obra é construída aqui, ela não é custeada de forma permanente para permanecer em pleno funcionamento. O mesmo governante ou o  seguinte espera que a obra inaugurada vire sucata para ou construir outra ou fazer um projeto de reforma da mesma, com valor muitas vezes equivalente a uma nova construção. É muito pouco sentimento de coletividade e de respeito ao espaço público. Isso é lamentável. Ainda lembro que quando eu cheguei em São Luis tinha orgulho das praças: Gonçalves Dias, Deodoro, Benedito Leite… hoje, cada vez que passo na Deodoro tenho vontade de chorar. Esse equipamento público de grande valor agregado virou alguma coisa inexplicável. E eu diria que a revitalização do Centro passa pela revitalização dessas praças com custeio e segurança permanente.  Construíram o Aterro do Bacanga, Litorânea, Lagoa da Jansen, Península… e tantos outros equipamentos públicos nas comunidades.  Como é que eles estão? Em relação à educação há apenas uma reprodução do que vem da política nacional básica, não é concebida uma política cujo olhar esteja direcionado para esta população.

GTE: Pelo que se conhece, todas essas reflexões não estão dissociadas da problematização feita pelo Formação e que orienta o conceito de educação integral integrada ao desenvolvimento territorial definido em sua missão.  Por que esse foco?

RC: Educação integral integrada ao desenvolvimento territorial não é apenas foco do Formação, mas é a sua missão . Desde o início já se trabalhava com o conceito de educação integral e, em 2003, se incorporou a sua integração com o desenvolvimento territorial. Nesse ano, quando estávamos mobilizando a juventude do Ensino Médio na Baixada Maranhense, que posteriormente se articularia em Fóruns da Juventude, usávamos alguns slogans do tipo: “jovem estuda e trabalha”, “jovem se comunica e faz arte”, “ jovem produz e ou se deleita com a arte”, “ jovem pratica ou assiste esporte”, “jovem come, dorme, milita, inventa, participa”, não como fragmentos, mas com a ideia de que faz (se quiser e tiver oportunidade) tudo isso, de forma integral. E ao se desenvolver como um todo, também tem mais condições de influenciar e intervir no desenvolvimento do lugar onde estiver, quer seja a escola, a família e ou a sua cidade / território.

GTE: O jovem pode transformar o mundo?

RC: Todos nós podemos. Mas, no trabalho que fazemos acreditamos ser o tempo da juventude o mais fértil para esse fim, porque é o período de nossa vida que a vivemos com mais liberdade para sermos o que quisermos, para vivermos os sonhos e a atuação apaixonada. Por isso trabalhamos com o pensamento de que os jovens podem transformar o mundo, ou não. E transformá-lo para melhor ou para pior, de acordo com as utopias que os alimentem e que lhes interessem. Tudo depende do que o jovem tem como conteúdo em sua zona de desenvolvimento proximal. No Formação trabalhamos para que seja uma cidadania exercida para a construção de um mundo mais justo e com inclusão social e material.

GTE: E a atual conjuntura ajuda o jovem a sonhar?

RC: O mundo está meio caótico. O Brasil vive um momento de muita complexidade, acirramento. É como se todo o pensamento conservador e autoritário estivesse adormecido e, de repente acordasse. Não acordou com timidez, mas de forma voraz, alimentado e respaldado por muitos poderes instituídos em nossas cambaleantes República e Democracia. Mas, o mundo e o nosso país podem ser melhor. Do meu ponto de vista nossas utopias e sonhos, por mais fragilizados que estejam, continuam vivos e podem ser fortalecidos. E acredito que a vida que temos é para vivermos com intensidade, ética, solidariedade,   liberdade e respeito ao outro e ao meio ambiente que nos abriga.

GTE: O Formação atua nas pontas da Educação Básica: Educação Infantil e Ensino Médio. Por quê:

RC: É na infância que se cria a base para um mundo melhor e é na juventude que fazemos esse mundo melhor acontecer.

GTE: Como nasce a ideia de Ensino Médio como ponto de desenvolvimento de território?

RC:  Para o Formação a prioridade é conceber projetos para sujeitos de direito com direitos não cumpridos e que vivem em territórios mais vulneráveis, com baixos indicadores sociais. Projetos que concebem programas de formação voltados para o desenvolvimento de pessoas que com o conhecimento podem transformar suas realidades. Em 2003, o Formação foi procurado pelo UNICEF para conceber um projeto para a juventude e decidiu primeiramente ouvir os jovens sobre a educação que tinham. Foi um amplo processo investigativo com grande participação de estudantes do ensino médio do Maranhão. Cruzamos dados oficiais, com potencialidades territoriais e sobre quais eram as avaliações e demandas desses jovens. Com essa pesquisa sistematizada e o cruzamento da necessidade de desenvolvimento orgânico do estado concebemos o projeto de Ensino Médio Profissionalizante como ponto de desenvolvimento orgânico de territórios vulneráveis.

GTE: Foi a partir dessa pesquisa que nasceu a ideia dos CEMPs e da EJA Profissionalizante?

RC: A pesquisa veio primeiro. A partir de uma demanda do UNICEF decidimos fazer a pesquisa como marco inicial de projetos com adolescentes e jovens em parceria do Formação com esse Fundo Internacional das Nações Unidas. Depois vieram dois movimentos: um de demanda do Prefeito de São Bento para construirmos um projeto educativo inovador para o ensino médio a ser implantado como política municipal em um lindo prédio que eles estavam construindo. Confiamos na Prefeitura e a Prefeitura confiou no Formação e assim nasce a rica história dos CEMP´s na Baixada Maranhense. Um segundo movimento foi o da EJA, numa construção coletiva de um projeto profissionalizante em nível básico para moradores da Baixada que estavam nessa modalidade do ensino fundamental. Ambas as experiências estão divulgadas em vários artigos.

GTE: Sei que há um cuidado muito grande com a inclusão das pessoas nos projetos, tanto que sempre é usado o lema Nenhum a Menos, do filme do Diretor chinês Zhāng Yìmóu. Qual é o conceito de inclusão do Formação nesses projetos?

RC: É interessante você trazer à tona não apenas o conceito inclusão, mas esse  filme desse roteirista, cineasta e produtor do cinema chinês que produziu essa linda história sobre a precária escola primária da aldeia de Shuiquan, que durante um mês teve que receber uma voluntária de apenas 13 anos como professora, na ausência do professor que necessitou afastar-se para visitar a mãe doente; essa jovem tinha como maior obstinação (para além do conhecimento que não dominava muito) a permanência de todos os alunos na escola, nem que por isso tivesse que usar todas as estratégias que conhecia e outras pensadas no processo. Usamos muito esse filme em Programas de Formação de Professores que realizamos nos anos inicias da história do Formação. E esse lema de nenhum a menos também ficou para todas as nossas ações. Nenhum jovem a menos nas ações.

Para o Formação a inclusão nos projetos  de pessoas deficientes também é uma prioridade – pensamos por isso mesmo a acessibilidade e outros cuidados que merecem atenção; mas também consideramos outros elementos de inclusão, por exemplo, na prática do esporte envolver o gordinho com o magrinho, o homem com a mulher, e pessoas de todas as cores e tamanhos. Em todos os programas, não nos interessa os conhecimentos prévios em si, pois a partir do que cada um tem e sabe, vamos juntos rumo ao mais longe que pudermos alcançar.

 

GTE: Voltando à Educação Básica, porque foi pensado o Ensino Médio Profissionalizante e não a formação geral para a continuidade no Ensino Superior? Não há muitas críticas de que um está destinado aos pobres e o outro aos ricos?

RC: Essa é uma reflexão importante. De forma geral, os estudos na graduação e licenciaturas sempre foram muito restritos a uma determinada classe, sobretudo cursos como Medicina, Direito, Engenharias. Contudo, com as políticas de abertura de vagas em universidades e de cotas, ampliação de FIES, exame nacional (ENEM) houve um movimento de democratização com a inclusão de segmentos econômicos diversos nos muitos cursos ofertados por universidades, centros e faculdades públicas e privadas. Essa abertura tende a diminuir com as políticas do pós-golpe que derrubou a ex Presidente Dilma Roussef. Particularmente, eu e o Formação defendemos nenhum a menos (que deseje) nas universidades. Contudo, também há que se conceber bons cursos técnicos em nível médio, de preferência que integrem o conhecimento mais geral e científico ao conhecimento profissionalizante, pois dessa forma o aluno pode se profissionalizar ainda na educação básica, mas prosseguir essa ou outra carreira em nível de graduação e pós-graduação, até onde desejar ir. Não concordo que se ofertem cursos apenas na medida da necessidade e exigência do mercado. E está ai a grande diferença dos Centros de Ensino Médio que concebemos, não apenas para ofertar cursos demandados no sistema capitalista, mas cursos voltados para as potencialidades locais, mesmo aquelas mais invisíveis, aparentemente insignificantes, ainda não inseridas em arranjos produtivos. Pensamos uma escola com cursos voltados para desenvolver pessoas que desenvolverão seus lugares de vida.

GTE: Quais ideias são fundamentos desse modelo de escola-ponto de desenvolvimento de território?

RC? Por trás da ideia do Ensino Médio Integrado ao Desenvolvimento tem outras ideias. A ideia de que essa escola pode ser um ponto de desenvolvimento de território, sendo a cidade o seu próprio laboratório, ou seja, para um curso de agroecologia, o laboratório são os quintais dos agricultores; para cursos de informática, podem ser usados para a parte prática laboratórios das escolas – que ficariam em permanente manutenção e atualização pelos alunos dos cursos técnicos, bem como o comercio local que seria lugar, ainda na aprendizagem dos estudantes, de experiência e de desenvolvimento de sistemas, portais, designs, planilhas e assim, sucessivamente. Outra ideia importante é a de que jovens dessas escolas se preparariam para serem filósofos do trabalho, atuantes organicamente no desenvolvimento de territórios com baixos indicadores sociais.

GTE: Nessa concepção de escola a pesquisa é importante?

RC: Sim. Trouxemos para o nível médio o tripé da universidade que prevê simultaneamente o ensino, a pesquisa e a extensão. O jovem estuda na escola, pesquisa a comunidade, a cidade e aplica o conhecimento ainda no processo de aprendizagem. É o que ele deve fazer quando estiver no quintal do agricultor ou em frente ao computador do comerciante local.

GTE: Um dos pontos importantes é o de estímulo de ideias de negócios criativos. Como isso ocorre?

RC: A estrutura curricular desses Centros de Ensino Médio Integrado é composta por três núcleos: um geral – conhecimento científico e de formação geral; um profissionalizante – de aprofundamento da profissão; um de incubação de ideias e desenvolvimento de projetos – para orientar quem desde o ensino médio tem um projeto para empreender.

GTE: Esses conteúdos curriculares são integrados?

RC: Trabalhamos na concepção e no processo de formação de professores com o conceito de interdisciplinaridade; contudo, compreendemos que integrar conteúdos deve ser uma ação de cada coletivo de professores, por escola. Quanto mais o professor dominar sua área e outras áreas, mas ele conseguirá dialogar com os diversos conteúdos e compreenderá quais sínteses podem ser feitas sem empobrecer o que deve ser possibilitado na zona de desenvolvimento proximal dos estudantes da escola.

GTE: Quais são os planos de disseminação dessa ideia?

RC: Sempre que temos oportunidade divulgamos essa forma de pensar e conceber o ensino médio. As experiências da Baixada Maranhense, como eram de iniciativa de municípios, foram estadualizadas e os projetos educativos foram esvaziados. Contudo, é uma experiência que foi adotada em outros lugares. Atualmente, estamos dialogando com um grupo de Moçambique para  a implantação de um Centro com essa metodologia na cidade de Tete. E sempre que formos solicitados continuaremos a divulgar, implantar e aprofundar esse conteúdo.

[1] Cofundadora e Diretora do  FCAEB  (Formação – Centro de Apoio a Educação Básica).  CEO do IMAES (Instituto Maranhão Amazônia de Educação Superior). Diretora da FFI (Formação Faculdade Integrada). Fellow da Ashoka. Especialista em Economia Social e Desenvolvimento Local pela Universidad General Sarmiento.  Doutora em Educação pela USP / Universidad de Sevilla.

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O PNE E MUITO MAIS – Ciclos de Debates

Entrevista realizada pelo Instituto Formação / Incubadora de Artes, Mídias e Tecnologias

Em 2014, o Instituto Formação idealizou os Ciclos de Debates em Educação, com o tema “O Plano Nacional de Educação e Muito Mais”. O objetivo foi gerar reflexões sobre a educação maranhense e sua relação com o Plano Nacional de Educação e com os respectivos Planos Estadual e Municipal.

Os ciclos foram realizados em parceria com o UNICEF e a SEMED (Secretaria Municipal de Educação) em São Luís. Para falar mais sobre essa iniciativa, entrevistamos a diretora administrativa do Instituto Formação, Regina Cabral, responsável pela sua concepção e coordenação.

Regina, o que é o Ciclo de Debates?

Regina Cabral:         É um ciclo de diálogo entre profissionais da área da educação sobre determinados assuntos pertinentes à Educação Básica do Estado. Com o tema “O Plano Nacional de Educação e MUITO MAIS”, os ciclos, além de tratarem das vinte metas estabelecidas pelo Governo Federal, fomentam a necessidade de se pensar uma educação libertadora de qualidade para elevar o Brasil enquanto potência econômica, sobretudo no estado do Maranhão.

 

Qual o objetivo do Ciclo?

RC:     Alimentar o debate sobre temas importantes. É muito fácil, por conta das rotinas, as pessoas ficarem acomodadas em determinados conhecimentos. O ciclo vem para sacudir os profissionais da educação, oxigenar e alimentar esse pensamento além de atualizá-los sobre as novidades que aparecem todos os dias. O conhecimento o tempo inteiro está sendo atualizado e o Ciclo de Debates trata sobre o quadro atual da educação na sociedade maranhense, as novas conjunturas, os desafios da educação pública e a partir disso é possível dar passos em direção a uma educação mais qualificada.

 

Como nasceu a proposta do ciclo? E qual a importância da sua realização para o Formação?

RC:     Essa concepção do ciclo nasce do compromisso e preocupação permanente do Instituto Formação com a elevação da qualidade da educação no Maranhão. Independente de não termos um orçamento específico para essa ação, o Instituto tem sempre como pauta aquilo que podemos fazer, enquanto contribuição para a qualidade da educação pública. Foi assim em 2014, quando nós definimos algumas temáticas importantes para serem aprofundadas pelos ciclos: a alfabetização, a educação infantil e a educação integral.

 

Os Ciclos foram realizados apenas na capital maranhense?

RC:     Sim. Todos os ciclos foram realizados em São Luís com profissionais da rede municipal de educação. O publico alvo era formado por diretores de escolas, técnicos e professores, ou seja, disseminadores de informações que possam repassar o conteúdo discutido nos encontros para os professores da Rede Pública de Ensino.

 

 Qual a contribuição dessa iniciativa, realizada em parceria com o UNICEF e a SEMED São Luís, para o sistema de educação municipal?

RC:     Uma escola para que seja de qualidade é fundamental o papel do professor e do diretor como apoiadores nas dimensões financeira, administrativa e pedagógica, bem como facilitadores do fluxo do conhecimento, que precisa chegar cada vez mais denso e consistente dentro da sala de aula. O UNICEF, o Formação e a SEMED com esses momentos breves de diálogos tinham como objetivo que esses temas relevantes a educação chegassem a esses professores. O que pretendíamos? Alimentar permanentemente o conhecimento, olhar para outros pontos, entender o que se faz e mais ainda o que precisa se fazer como profissional da educação, ou seja, as três organizações juntas contribuíram fomentando esse debate.

 

Quais foram os resultados do ciclo de debates?

RC:     Os ciclos resultaram em outros debates similares. O ciclo de alfabetização, por exemplo, agrupou os profissionais para aprofundarem a discussão sobre essa questão. Enquanto isso, o ciclo de educação integral resultou na elaboração de propostas de construção de polos de escolas para educação integral*. O projeto Olimpíadas do Brincar ao Jogar, o curso de Pós Graduação em Alfabetização e de Gestão e Docência da Educação Infantil oferecidos pelo Formação Faculdade Integrada surgiram dos ciclos de debates. Várias outras ações e projetos realizados com a SEMED também nascem a partir desse momento de debate conjunto.

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UNIVERSALIZAÇÃO DA EDUCAÇÃO BÁSICA E PEC 55 – MÃO E CONTRAMÃO NA HISTÓRIA NO BRASIL

Maria Regina Martins Cabral

pec-55

Tendo em vista o marco zero da ocupação dos europeus no Brasil com a chegada dos portugueses em 22 de abril de 1500 este país tem quase 517 anos.  Considerando uma media geral de vida de 55 anos (atualmente a média  do brasileiro é de 75 anos), teremos tido aproximadamente dez gerações de filhos dessa pátria – amada?

Filhos que amam a pátria, mas esta, a todos eles tem dedicado o mesmo afeto? Elencando um conjunto de necessidades que cada um tem desde que nasce, apenas muito recentemente boa parte dessas necessidades tem sido atendida.

Dizem que é científica a comprovação de que a mãe tem preferência por um ou alguns de seus filhos. No caso do Brasil é muito clara essa preferência pelos mais abastados. Quanto mais tem, maior o amor. Qual será a ciência por trás desse sentimento profundamente tendencioso?

Em alguns momentos para compensar o fosso criado por tamanha simpatia descompensatória, alguns ajustes são feitos. Recentemente o de universalizar a educação básica, por tanto tempo privilégio de poucos desde sempre agraciados com muito.

O atual governo ilegitimado pela ausência da escolha democrática em um golpe marcado pela pedra jogada na costa de quem não rouba pelas mãos sujas buscadas pelos jatos que não lavam tende a tirar do cenário treze anos em que a mãe pátria decidiu abraçar a maioria de seus filhos e para eles destinar algumas políticas compensatórias e universalizar um dos direitos mais sagrados: o de aprender com mestres por dentro de instituições públicas.

Nada mais cruel do que aumentar por vinte anos o tormento pela continuidade da falta de horizonte daqueles que estão do outro lado do pródigo. Para cada bebê que nascer a outra mãe já sabe que ele estará na corda bamba da vida. Já vem do ventre ao berço sem esplendor. Receberá algum afeto, amor, direitos dessa pátria tão hipocritamente egoísta?

A PEC 55 aprovada no Senado Federal e promulgada no Palácio da Alvorada -qual? como Emenda à Constituição 95 produzirá grandes e graves prejuízos à educação pública, desde o que se refere a investimentos para melhoria da qualidade, até a ampliação de ofertas nos extremos estruturantes: Educação Infantil – onde se prepara a elite pensante;  Graduação – onde se prepara e elite que inventa e comanda.  O que será feito com o Plano Nacional de Educação? Bom, pensando pela lógica do golpe: se não é importante o povo escolhendo presidente, por que imaginar importância de gente discutindo e aprovando plano de educação?

O teto de gastos na área da educação começará a valer a partir de 2018 quando o investimento será igual ao de 2017 (equivalente a 18% da receita líquida do governo) mais o acréscimo da inflação do ano anterior, medida pelo IPCA.

Não apenas a qualidade e a ampliação estarão em risco, mas o custeio mínimo, o funcionamento do dia a dia, com papel, material, contas a pagar de água, luz, internet, etc. Também a meta do custo aluno-qualidade, que determina um valor mínimo a ser investido por aluno para garantir qualidade de ensino, estará inviabilizado. Esse indicador para que seja aplicado precisa que o orçamento das matrículas atuais na educação básica aumente em pelo menos R$ 37 bilhões.

Afinal, o que deseja o Governo Temer com essa restrição de recursos para as políticas públicas e de assistência? Alguns especialistas dizem que o principal objetivo, o de melhoria fiscal, não será alcançado. E o país permanecerá ao investir em apenas alguns de seus filhos em um lugar que não mereceria estar. É esse o propósito? Continuar abraçando apenas os mais próximos?

Para aqueles que defendem que independente do amor preferencial todos merecem as mesmas oportunidades não se pode prescindir dos investimentos que produzirão desenvolvimento para o conjunto de sua população. Investimento que tem como foco o estudante e como estratégia o professor. Nesse sentido, o óbvio seria investir em salários, formação inicial e continuada de professores e tornar essa profissão atrativa para que bons alunos da educação básica desejem estar formando as gerações de filhos amados por uma pátria que deveria ser mais gentil.

Nenhum país que se desenvolve o faz sem investir em educação. O investimento na Educação Infantil é estruturante para o Brasil ser radicalmente desenvolvido e protagonista respeitado no cenário global. É certamente dos zero aos seis anos de idade que se constrói (ou não) o maior campo de possibilidades de criar, inventar, pensar e posicionar-se dentro e fora de um determinado território. Está claro que cada vez mais se valoriza a capacidade de criação, concepção, invenção, reflexão crítica, comunicação, gestão, habilidades que dependem de uma educação criativa, sofisticada, focada, ampliada e que se inicia já no ventre materno.

O Brasil errou e erra ao deixar nos olhos uma venda que não permite enxergar o que é mais importante para se posicionar como gigante pela própria natureza. De forma inacreditável, mesmo sendo essa a sua potência, por vias incompreensíveis a quem tem consciência, esse gigante prefere se apequenar – pela ignorância em não ver além, avareza de quem se acha dele seu dono e submissão ao império de quem prefere ser vassalo?

Somente quando a pátria-mãe perceber o poder da educação, não o processo, mas o seu desfecho poderemos alcançar outro patamar de civilidade e de bem-estar. Mas olhando para os homens que o jato não alcança porque usam capa em uma justiça que mantém quando convém a venda, fica difícil se imaginar dias de bem viver no seio, com liberdade, dessa terra adorada.

 

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